Os Efêmeros Somos Nós


TRAGA SUA NOITE MAL DORMIDA

 

Toca a campainha, João entra, e junto dele, esta mulher. Acho que era só um espírito porque só eu parecia vê-la.
Mas ela me olhou nos olhos quando eu a perguntei o que é que estava fazendo roubando as comidas da minha geladeira..! E dela não saía uma palavra; continuava agindo como se ainda houvesse muito a fazer.
Cabelos pateticamente brancos, presos num coque humilde, óculos fundos, pequenina e frágil, desse jeito mesmo que se imaginam velhinhas..
_João, João!! Você não está vendo??

Quê que essa mulher ta fazendo aqui? Porque ela veio com você?

Você não tá me ouvindo??? Eu to falando com você! Quem é essa mulher?
João?

 

E ninguém me ouvia, - desesperador como ouvir um grito no meio da noite, e o cachorro não parar mais de latir - .


[E dizias tu constantemente sonhar com situações assim, ou com aquelas que o cabelo está sempre à frente dos olhos e nada se pode ver com clareza e por isso começa a tropeçar na rua e a cair subindo as escadas, e os cabelo nunca sai dos olhos.]

 

João continuava em cima da cadeira,  colocado o spot de luz que faltava na sala, e no banheiro de visitas, e iria também arrumar a torneira que pingava infinitamente em ressonância com os segundos do relógio.

Quando há o giro do meu corpo para outro lado, as paredes estão todas sendo pintadas porcamente de branco, todas, todas as paredes, elas eram azuis com um tipo de textura e a velha passava o rolo encardido nas paredes, clareando as paredes, que se tivessem boca estariam gritando aflitas para que alguém as socorresse imediatamente. Estavam sufocando e matando minhas paredes.
A única boca presente era a minha que então gritava por mim e pelas paredes estáticas e ninguém parava o que estava fazendo.

 

(Há então a mexida das pernas, se esticam e voltam a dobrar-se numa respiração simbolicamente como a segunda marcha, sensação ruim, porém familiar.  Puxo o cobertor pra perto das orelhas.)

João fala comigo, diz que precisava voltar outro dia para terminar de limpar os armários, e de repente, todas as gavetas estão encrostadas de massa corrida.
Meus olhos viram uma câmera filmando todo aquele apartamento, fechei a porta do último quarto para que a velha não entrasse. _O quê eu vou falar pra Suzana quando ela chegar? Que não dei conta de impedir a velha?
João falava loucamente comigo mas eu não o entendia, a câmera abria as portas do armário da sala, os móveis, o piso frio, tudo completamente branco, roupas e objetos espalhados pelo chão e em cima da cama, a sala escura. Uma solidão.

Havia caixas e caixas de material de dentista, tesouras, alicates, coisas que eu sequer reconhecia a utilidade. Tudo de metal, misturado com muitos pedaços de papéis já amarelados do tempo.
_ Meu deus como o Luís não tirou essas coisas daqui antes de se mudar? Acho que vou ligar para Carla e perguntar se ela tá precisando de materiais pra usar.
E João do meu lado, gesticulando e a velha, pintando as paredes. Tudo em câmera lenta, só os pensamentos e as assimilações rápidas demais.

Abro a outra porta do armário e mais caixas abertas, aquelas de guardar ferramentas.
Muitos e muitos materiais de pesca. _ Não to acreditando que o Luís deixou tudo aqui! Onde será que ele ia pescar? Como a gente não viu essas coisas aqui antes?

 

De repente um fio de nylon enrosca no meu braço.

Acordo.

 



Escrito por Jé, me Mime às 17h26
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