Os Efêmeros Somos Nós


TRANSMUTO E DESMOFO.

E há tanta coisa prensada, tipo caixas de papelão uma em cima da outra, esticadas e desfalcadas de sua forma habitual, tanta coisa que foi engolida, teve seu processo digestivo e, tóxico ou nutritivo, ainda não foi excretado e corre pelo fluxo sanguíneo rondando meu corpo inteiro, incomodando (resgata-se a paz de deixar o incômodo ser interessante e deixar que incomode raivosa e profundamente) e/ou enfeitando.

Quando se percebe os olhinhos, pra lá e pra cá. Caraminholando palavras soltas. O silêncio crônico. A boca emudecida não é só a boca, chega a ser até mesmo uma brancura pálida no pensamento, um estancamento de idéias e sensações devido ao risoto frio e acumulado de fatos acontecidos, vividos, absorvidos.. idos.

Houve então o fim de tarde, a revolução de um estado histérico, colérico e desilusório.
Houve o resgate dos cacos de vidro, juntos foram ao fogo, derreteram e outra arte tornou-se.
Toda com seu brilho e transparência ainda mais fortes.
Não, o brilho não chegou a cegar completamente.
De certa forma ele ainda é aquilo que foi, e dependendo do ângulo atingido pela luz, brilhante como se fez, reflete os padrões ainda sendo modificados num ritmo lento, matando aos poucos, e impulsionando com força – a dificuldade de fazer força pra impulsionar algo bem mais pesado - a viver mais e ofegantemente mais. Quase que numa obrigatoriedade de aceitar os caminhos que já se atravessou com os pés descalços.

 

Mas nesta tarde, o vidro se fez outro, mais forte, mais frágil, e o encantamento borbulhou as entranhas de um líquido denso e quente. Houve sorriso e festa. Eu me entorpeci.
Passaram um pano limpo com álcool em meus olhos, e eu pude voltar a alcançar a beleza que eu (se quiser e quando) posso perceber ao ver cada cadeia de carbono definida e modificada dependo do espaço e função que se ocupe.
E também nas dores.

As meias situações viraram situações e meia e tudo foi adicionado e pintado com mais cores, mais vibrantes.
Até aquilo tudo dos buracos.

O silêncio quando vem, vem forte e cada dia é agora uma novidade de sensações não familiares e confortavelmente sãs. A vontade de ficar debaixo do edredom no escuro enquanto o mundo lá fora, o banho pra revitalizar, as fraquezas, tudo está aqui.

E é o aflitivo aperto no peito, a sensação da eminência dos tecidos reais e dos fantasiosos explodindo pelos ares que traz a consciência de uma imensidão (mesmo nas horas que não faz sentido) sendo ainda apreciada e experimentada deliciosamente. 



Escrito por Jé, me Mime às 19h15
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