Os Efêmeros Somos Nós


" OS ASSASSINOS ESTÃO LIVRES, NÓS NÃO ESTAMOS. "

                                                          

 

 

Aqui eu falo sobre Paulo, sobre Claudinha, Fátima, Valéria, Selma, Michele .. da Maria do Jõao e de todos esses.

Aqui falo.. daquela realidade que fica beirando, apenas pelo ouvido que não presta atenção, do olho que vê mas não enxerga e da boca que nem tem um movimento se quer. A mente preocupada com outras preocupações.
Aqui sou eu, cara a cara com a outra vida que tange tão próxima a minha vida, e dos raspões que tento engolir à seco.

É da rotina exaustiva do trabalho interminável. O necessário pão de cada dia, suado.
Paulo levanta às 8 pra estar no trabalho às 10 horas manhã. E lá fica manobrando os carros dos bacanas pra que  estacionem sem transtorno na hora do almoço. E faz isso até às 15 horas, quando pode almoçar. Após o almoço de quinze minutos (do qual além da comida, é obrigado a quase beber até o próprio pensamento), vai ao banco, paga contas com o dinheiro que não é dele, resolve mil e uma coisas, volta para o local de trabalho, pega a lista do supermercado, faz compras pro almoço do dia seguinte, pesa os quilos de arroz, 200 gramas de damasco,  5 ricotas frescas, pega as 5 garrafas de suco de uva, coloca tudo arrumado dentro das caixas. Fecha as portas de correr do estabelecimento, conserta a porta enferrujada com durepóx. 7 da noite coloca as caixas dentro do carro cheiroso do patrão, vai até o outro restaurante, tira tudo de dentro das caixas. Os quilos de arroz, os quilos de esperança. Pega o metrô, pega ônibus. Chega em casa as 10 horas da noite. Pela lei, o vale transporte é descontado do salário. Que coisa, Paulo tem gasto quase que metade do salário pois mora muito longe.
Paulo mora sozinho, veio da Paraíba, deixou pai, mãe e 3 irmãos. Ha três anos mora em são paulo.
Eu falo da infelicidade que vejo todos os dias nos olhos deste. Enquanto Fátima também faz o trabalho pesado da cozinha, Claudia atende no restaurante.. e etc. Todos com o sotaque nordestino típico de quem migrou para SP em busca de um futuro melhor, melhores condições de sobrevivência.

E fica-se preso numa rotina que o corpo pede socorro no tempo restante, pede a cama, exaurido das pernas e do cérebro pensando na vida a cada segundo.
Falo da minha revolta. Da compaixão que sinto. Dessa vontade doída de que as coisas fossem diferentes e que houvesse mesmo uma droga de uma democracia muito mais organizada.
Trabalhos que duram inclusive sábados, domingos e feriados não são trabalhos dignos de produtividade benéfica.
Sim, os funcionários trabalham, claro, o restaurante não fecha suas portas! O alto nível social vai almoçar uma comida deliciosa no sábado, depois faz o programa que quiser, debaixo de um céu azul, ou vai pra casa descansar e assistir um filme do Almodóvar se estiver chovendo. Enquanto Michele lava os pratos, o banheiro, lava as mãos da seu próprio sábado. E domingo a mesma coisa. Denovo, sim, os funcionários trabalham, mas o chefe, o chefe também está passeando e descansando. Porque ele precisa de um momento de lazer.  

Recebe-se pouco pra um trabalho insistentemente massante. Que sufoca as relações socias dessas pessoas, a relação delas consigo mesmas,  a relação viver e se sustentar, onde viver inclui o sentido mais amplo da palavra. Trabalha-se como escravos mascarados.
Você pode pensar positivo e dizer  "que bom que pelo menos eles tem um emprego."  E eu penso que eles tentam se convencer disso todos os dias como se emprego fosse ter que abrir mão de todo o resto.

Alguém, deixe o Paulo ( Fátima, Valéria....) respirar. Simples como ele só, anda com a foto da irmã no bolso - aquela que ele não vê a três anos. Nunca mais voltou pra casa lá na Paraíba, o salário não dá pra isso.

Só quem sente na pele sabe. Eu pouco entendo sobre isso tudo, o que vejo de fora e o que sei por eles eu alcanço só com a palma das mãos, e o coração apertado.
Sinto a impotência se esfregando na minha cara, fazendo uma bagunça infernal nos meus dias. Vontade de fazer alguma coisa. E tanta gente, milhões e milhões de pessoas.... Não é questão de ter bom coração, querer virar Dalai Lama. É que aqui corre sangue mesmo nas veias.
Ter a sensibilidade e a humildade pra se deixar ser atingido por isso. Por que eu poderia simplesmente virar as costas e ir tomar um sorvete.
Será que eu tenho que me sentir um pouquinho melhor só porque eu também enxergo essas coisas e lamento?? Não, eu não me sinto melhor.

Sou completamente exigente, irremediavelmente brava por essa ausência de trabalhos decentes, com direitos mais plausíveis ; se se trabalha demais então que o salário tenha uma compatibilidade favorável,se não, que haja tempo livre pra fluir, pro exercício físico, pros relacionamentos, para um livro, pra descansar.

Essa vontade de mudar o mundo... e não sei até que ponto fica TODO O MUNDO conformado com as situações mesmo. Afinal, quem não passa por isso não sabe como é e nem quer saber. E quem passa, faz o quê??

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E os dias vão passando, as pernas, presas por uma corda, um elástico que às vezes estica um pouco mais, acredita-se que se está um pouco mais perto de atingir os objetivos, e depois o elástico te puxa, te incapacita de seguir em frente. Você leva um susto e questiona o tal livre arbítrio, a liberdade de poder dar o rumo que quer pra sua vida. Isso não existe. Não completamente.  ..
E mais uma vez, Dorme-se e Acorda-se. Ou se faz alguma coisa, muda-se de emprego, faz uma loucura, entra na justiça, enlouquece de vez...  até um dia em que se morre. E isso não traz também nenhum alívio.



Escrito por Jé, me Mime às 21h13
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