Os Efêmeros Somos Nós


OS FINS DE OUTRORA

                                                

 

E descendo aquela rampa, desvio das pessoas, desvio de todas “as manhas e as manhãs”  meus olhos seguiram aquela voz estridente que vinha de uns 2 andares e meio mais baixos que  meus ouvidos.

Vi uma mulher silenciosa que levava na cadeira de rodas, aquela outra, da pele morena já desgastada pelo tempo, cabelo em coque e maquiagem forte.. talvez estivesse borrada propositalmente.

Uma boca vermelha cor de jambo, um blush azul e um lápis pretíssimo envolvendo olhos grandes e cínicos. Ainda bem que aquele olhar não se dirigiu à mim e sim a um homem do meu lado que também deve ter desviado a atenção pra ela somente pelo falatório incômodo.

Esta mulher parecia uma boneca de filmes de terror, carregou seu sorriso irônico e um olhar de enfrentamento do mundo. Tinha uma caixa de morangos no colo e a certeza que todas as pessoas ali a olhavam, tinha a noção de que estava falando alto demais, para atrair olhares mais distantes e assustar com a sua convicção de ter superado aquela imobilidade parcial.

Eu tive a sensação de que seu olhar dizia “Vê! Eu estou ótima sentada nessa droga de cadeira!!”.

E ainda não sei direito por que, mas a cena dela fitando os olhos no homem ao meu lado me atemorizou. Se ela tivesse olhado diretamente para mim, eu teria vomitado.

 

 

Naquela tarde fria, sensação térmica de 3 graus Celsius, os ossos pedindo socorro e cobertor, o mendigo na rua rasgava o caminho e costurava o seu próprio no meio daquelas pessoas do avesso pra dentro de si. E dizia alto as frases que vinham sem nexo da mente, eu sabia da intenção dele. Ele estava apenas fazendo aquilo que todo mundo deseja fazer (um dia ao menos!) pra se libertar, mas não fazem devido aos cadeados internos, padrões enrustidos da ética social rasa e sufocante. E do mal-estar na pele pelo silêncio, da boca inconscientemente em estado de latência pelo contínuo hábito de “não dizer”.

Não seria pelo fato dele estar com roupas sujas, de meter medo (do assalto, da abordagem, do desconhecido e fora da sua realidade), cabelos engruvinhados e unhas compridas, não, não seria por isso.

Se fosse um cara de terno, cabelos metodicamente penteados com gel e livro na mão você o julgaria como mais um em estado obsessivo pela igreja evangélica. E esse seria o seu rótulo.

É mais fácil intitular de louco, de insano, drogado ou coisa que o valha. É mais fácil pra você que anda na rua com desejos de fazer o mesmo e gritar ainda mais alto. É cômodo sentir asco, mudar de calçada, fingir que não viu. (Ah.. Mas você não pode escapar, por mais que a sua conversa interna tente abafar seus pensamentos de libertação, seus ouvidos estão atentos e os lábios estão trêmulos.)

Os murmúrios e indignações coletivos se espalham no desconforto mudo e depois você vai pra casa, toma seu banho quentinho, dorme, acorda no meio da madrugada suando de um pesadelo e tenta entender porque.

 

 

A caminho de um rumo qualquer, dentro da locomotiva, aquele barulhinho de surpresa, de presente debaixo da cama, de pão fresco saindo do saco, de troca do lixo, a compra do mês indo pro porta malas do carro, o remédio pra aliviar a dor latejante daquilo que te sustenta, lá estava aquele barulhinho de saquinho remexido de bala de goma. Os dedos de um homem alto, forte, vestido de marrom e jeans voltando pra casa, alcançavam lá no fundo os doces coloridos. E os mastigava um por um, adoçando o sangue, os pensamentos, as vísceras e a vida ali presente. Deglutições pausadas, porém sem vírgulas nos devidos lugares.  E eu observava com um sorriso, uma satisfação pelo prazer que ele estava vivenciando as balinhas mastigáveis, uma de cada vez grudando e desgrudando nos dentes, distraindo os devaneios, e colorindo pouco a pouco - mas de uma vez só - os dilúvios, as alegrias e sonhos por dentro.

 



Escrito por Jé, me Mime às 17h55
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