Os Efêmeros Somos Nós


"Solamente una vez.."

Mulher, 84 anos, cabelos ralos, castanhos, dos quais ela mesma faz questão de pintar e enrolar vez ou outra.Voz doce, olhos claros, casa limpa, ainda sorri.

Viúva, mãe de 3 filhos, avó de 6, bisavó.

Mora sozinha e inventa barreiras intransponíveis para uma vida menos fluida.

Talvez pela geração onde a mente ainda se prende em alguns pedaços de detalhes supérfluos e causadores de sofrimento.

A joanete lhe trouxe dificuldades para andar e por isso têm tido uma horrível dor nas costas, foi sugerido uma hidroginástica para aumentar a amplitude dos movimentos, a disposição, diminuir todas as dores que acordam com a idade de um corpo sedentário e de muito ter trabalhado e ela responde com a voz firme, um tom duro como ossos quando saudáveis : _ Imagina que eu vou ficar de maiô?! Nem no meu tempo de casada vestia um maiô! Ainda mais agora velha desse jeito!

 

Foi sugerido, insistentemente, uma operação simples para retirar a joanete, raspa-se o osso e pronto..! (Procedimento normal e considerado simples em comparação a cirurgias tecnologicamente avançadas e mais complexas.)

Ela só pensa no medo da anestesia e diz não pois não tem quem fique com ela para ajudá-la na fase de repouso (e ai de quem tenha a idéia sem cabimento de chamar uma enfermeira ou acomodá-la na casa de um dos parentes )...

 

Em suas conversas o “não” se encaixa com muito mais freqüência do que o “sim”, se chove está ruim, se faz sol, está ruim. Mas gosta de chuchu, de chocolate, de ver os filmes de “sua época”, de laranja-lima e de ouvir os boleros.

Hoje assistiu a missa às 6:30 pela tv, reza e canta como se estivesse na igreja, levanta quando o padre vai falar do evangelho do antigo testamento, e volta a sentar, levanta e depois senta.

No domingo, assistiu a um programa no qual o cantor cantarolou um de seus boleros mais especiais. Era este o que ela se lembrava do marido, de quando ele cantava pra ela no chão marrom da sala e dançavam, os passos eram cúmplices dos sorrisos e da vida compartilhada. Chorou.

Depois viu mais um pouco de televisão, foi até a cozinha tomar café com leite, com bastante açúcar.

Acordou no outro dia com os olhos inchados de tanto chorar antes de dormir. Derramou lágrimas de saudade, alegria, pesares, dores, lembranças, solidão e sabe-se lá o quê mais ainda viveu e morreu dentro desta mulher naquela madrugada.

Percebeu os olhos inchados no espelho, abriu a janela do quarto e com passos vagarosos foi tomar seu banho; sentiu o jato d´ água quente correndo pelo seu corpo frágil, lavando a sua alma-forte e sentiu uma sensação de conforto. Está viva.

                                                                   



Escrito por Jé, me Mime às 00h48
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Resolveu escrever um pouco sobre..

Pessoas ansiosas que balançam a perna incansavelmente num movimento que as deixam ainda mais ansiosas..
Pessoas ansiosas.. olham no relógio, comem catchup puro, direto do pacotinho com necessidade urgente de saciar alguma coisa..

Também quis escrever sobre como as pessoas são carentes... como todas gritam silenciosamente suas urgências, seus desentendimentos.. as problemáticas do amor e dos relacionamentos afetivos... o emprego.. a falta de tempo para os prazeres.. olham pelo vidro com olhos doces e profundos..  petrificam o corpo por alguns segundos.. como se pudessem parar o tempo e voltar atrás onde, sem querer, o caminho se fez outro e menos agradável..

Ela sabe que esta pode ser uma maneira dela projetar suas próprias carências, pois é assim que vê o mundo..
Tem uma vontade imensa de abraçar essas pessoas de olhos parados - que falam frenéticamente - olhos que não se cruzam nunca com os dela e quando cruzam logo são desviados, como se fosse pecado ou crime, como se tivessem medo de declarar que estão despedaçados, ou que estão felizes..

Essa vontade de abraçar vem de um amor imenso, um amor profundamente incondicional.. da visão que abrange toda uma situação de vida, de diversidade, do encantamento e mistério do mundo.. tudo num ser também tão único.. um universo inteiro limitado pela pele..
Onde também estão inclusas as aversões pelas pessoas e por tudo que possa vir delas..

_ Vc trabalha na área da saúde.. meche com pessoas, não é fácil. apesar de suas belezas.. Dá vontade de mandar todo mundo junto com seus problemas, angústias e chatices à merda..! Pq somos infinitamente chatos, complexos, teimosos e etc etc etc.. uurgh..! Mas sim, tem horas que dá vontade de abracá-los e dizer que tudo vai ficar bem. Dar uma sementinha de consciência de que as coisas podem ser diferentes, de verdade.

_ Humm de novo esse blá blá blá de terapeuta....

(Risos)

_ É verdade, é papo de terapeuta... mas penso que os terapeutas são pessoas bem acertivas no que falam..

E ela reforça que dá sempre para ficarmos mais conscientes de uma situação. Que quando pensamos que estamos entendendo, podemos entender mais e ao mesmo tempo que esse processo acontece, nosso corpo e espírito se modificam completamente.
Há uma mudança de padrão tão forte que  nunca haverá de ser o mesmo sorriso. O mesmo modo de girar a chave na porta.
E que é tão fácil entrar no mundo das ilusões (pq até nesse papo de lucidez pode haver um bocado de ilusão inventada), no mundo da viagem interna, como se estivéssemos afundados num monte de àgua morna.. e nadando v-a-g-a-r-o-s-a-m-e-n-t-e, vendo um pouco embaçado.. ouvindo com um pouco de eco. (eco..eco..)

 E esse mundo é muitas vezes, bem mais fácil de ser vivido.. outras vezes não.. ficamos enrosacados num sofrimento idiota.. (pq é tão mais fácil e seguro ficar enroscado em um monte de fios idiotas..é tão mais fácil nadar nessa água turva...)

Ela fica feliz quando se vê saindo de uma necessidade velha, caduca, pra possibilidades de resgatar um pedaçinho de alegria e de calor do sol. Isso faz o mundo girar e se expandir.. alcança um milhão de vezes o externo, fora do seu umbigo e traz noção de variabilidade, do novo, de poder se encontrar com um milhão de outras coisas parecidas ou diferentes... De poder novamente, se encontrar..

_ Isso também tem a ver com o fato de sentir-se útil no mundo, como trabalhos com pessoas. Como quando se vê um sorriso e uma sensação de auto-conhecimento - mudança - que você promoveu através do que sabe. E passar isto adiante pra quem está aberto a receber e ver a presença que isso traz pras pessoas, é eternamente gratificante.

_Por isso que esse povo da saúde tem esse sério problema de sempre querer ajudar os outros.. e de ficar reparando.. quem tá ansioso, quem tá triste, prestando atenção nas conversas, na postura do corpo.. e nisso e naquilo..

_ Isso é uma doença também..

(Risos)

Sim pode ser que sim.. no meio de tantas delas.. pode ser a doença.. pode ser o remédio que todo mundo devia tomar.. pra estar sempre atento.. pra ter muito amor e vontade de abraçar os outros.. de dar um sorriso de cumplicidade para quem nem se conhece.. doença/remédio de compartilhar o que se sente, o que não se entende. Compartilhar efetivamente, de longe. sem precisar sentar par discutir os casos (descasos, acasos..)

_Seria bom se as pessoas pudessem saber que podem dividir/somar esse silêncio.. tranquilamente..

_Talvez façamos isso sim, mesmo sem saber direito..

_ Sim... talvez façamos algumas vezes..

_ ........

_ ..........



Escrito por Jé, me Mime às 21h13
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São esses ciclos.. os movimentos sem fim de contração, expansão.. transmutando em frações de segundos.. são as estações, hoje já indefinidas visto que no inverno passamos tanto calor.

 

Tudo tem. Chovido muito ou feito sol..  alaga ou vira chão do nordeste. ( "e o sertão vai virar mar e o mar virar sertão")

Ando como se não tocasse os pés no chão, talvez porque queira sem querer saber..assim.
Agora é melhor... pois quando eles o tocam demais, me perco. Acordo.

Penso estar evitando o suicídio, conforme mantenho em segredo aquelas dores e doçuras, os encantos infinitamente desencontrados .. mas essa morte, chega mansamente, sutil e devastadora pretejando lenta e silenciosamente os passos dados sozinha.

 

Olhos parados.

_É daquela inércia que eu tô falando.


Lembro que estou viva – acordo - a cada vez que, no meio da noite, meu corpo se meche, se espreguiça involuntariamente e todos os ossos da minha coluna estalam sem doer, na seqüência comparada como sentar em cima daquelas bolhas de plástico que embrulham objetos frágeis.

Frágil é o meu corpo e embrulhada é a minha noite.

Lembro que estou viva também cada vez que tenho aquelas lembranças, ou, no presente instante quando sinto o cheiro dele, o gosto da boca, a penetrante exatidão dos olhos; coloco o ouvido bem perto para me verter do timbre daquela voz.. sua presença. Acordo.

Vejo as cores todas e outras a cada movimento desse humor vulnerável. A Ira insuportável de dar as costas para o mundo inteiro e acho imensamente lindo quando volto a pulsar, pois é como deixar a água fria do mar envolver o pé já afundando na areia, é como despertar sempre.
Alguns degraus da escada desço volta e meia, sem me dar conta, não há motivo em relutar, mas os degraus abaixo consomem e perturbam e os de cima consomem, diferentemente.

 

Cada fragmento se mantém bambo, porém sobre as verdades que lhe cabem e procura-se não bambear tanto.
Quando vem a noite e ela me conta com lágrimas suas expectativas frustradas, seus planos e seus desapontamentos, e eu percebo mais uma vez, -acordo- a sutileza das ações impensadas, da atenção desviada demasiadamente para um só canto da parede.

 

Transmuta e então consigo cantar, brincar, sentir o frio na barriga, e depois o da espinha, fazer uma piada, o carinho é espontaneamente lúcido, descontraio os maxilares. E os pés estão novamente n´água.

 



Escrito por Jé, me Mime às 00h40
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TRAGA SUA NOITE MAL DORMIDA

 

Toca a campainha, João entra, e junto dele, esta mulher. Acho que era só um espírito porque só eu parecia vê-la.
Mas ela me olhou nos olhos quando eu a perguntei o que é que estava fazendo roubando as comidas da minha geladeira..! E dela não saía uma palavra; continuava agindo como se ainda houvesse muito a fazer.
Cabelos pateticamente brancos, presos num coque humilde, óculos fundos, pequenina e frágil, desse jeito mesmo que se imaginam velhinhas..
_João, João!! Você não está vendo??

Quê que essa mulher ta fazendo aqui? Porque ela veio com você?

Você não tá me ouvindo??? Eu to falando com você! Quem é essa mulher?
João?

 

E ninguém me ouvia, - desesperador como ouvir um grito no meio da noite, e o cachorro não parar mais de latir - .


[E dizias tu constantemente sonhar com situações assim, ou com aquelas que o cabelo está sempre à frente dos olhos e nada se pode ver com clareza e por isso começa a tropeçar na rua e a cair subindo as escadas, e os cabelo nunca sai dos olhos.]

 

João continuava em cima da cadeira,  colocado o spot de luz que faltava na sala, e no banheiro de visitas, e iria também arrumar a torneira que pingava infinitamente em ressonância com os segundos do relógio.

Quando há o giro do meu corpo para outro lado, as paredes estão todas sendo pintadas porcamente de branco, todas, todas as paredes, elas eram azuis com um tipo de textura e a velha passava o rolo encardido nas paredes, clareando as paredes, que se tivessem boca estariam gritando aflitas para que alguém as socorresse imediatamente. Estavam sufocando e matando minhas paredes.
A única boca presente era a minha que então gritava por mim e pelas paredes estáticas e ninguém parava o que estava fazendo.

 

(Há então a mexida das pernas, se esticam e voltam a dobrar-se numa respiração simbolicamente como a segunda marcha, sensação ruim, porém familiar.  Puxo o cobertor pra perto das orelhas.)

João fala comigo, diz que precisava voltar outro dia para terminar de limpar os armários, e de repente, todas as gavetas estão encrostadas de massa corrida.
Meus olhos viram uma câmera filmando todo aquele apartamento, fechei a porta do último quarto para que a velha não entrasse. _O quê eu vou falar pra Suzana quando ela chegar? Que não dei conta de impedir a velha?
João falava loucamente comigo mas eu não o entendia, a câmera abria as portas do armário da sala, os móveis, o piso frio, tudo completamente branco, roupas e objetos espalhados pelo chão e em cima da cama, a sala escura. Uma solidão.

Havia caixas e caixas de material de dentista, tesouras, alicates, coisas que eu sequer reconhecia a utilidade. Tudo de metal, misturado com muitos pedaços de papéis já amarelados do tempo.
_ Meu deus como o Luís não tirou essas coisas daqui antes de se mudar? Acho que vou ligar para Carla e perguntar se ela tá precisando de materiais pra usar.
E João do meu lado, gesticulando e a velha, pintando as paredes. Tudo em câmera lenta, só os pensamentos e as assimilações rápidas demais.

Abro a outra porta do armário e mais caixas abertas, aquelas de guardar ferramentas.
Muitos e muitos materiais de pesca. _ Não to acreditando que o Luís deixou tudo aqui! Onde será que ele ia pescar? Como a gente não viu essas coisas aqui antes?

 

De repente um fio de nylon enrosca no meu braço.

Acordo.

 



Escrito por Jé, me Mime às 17h26
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ENCONTROS E DESPEDIDAS

 

_ Enquanto preparavam o caixão eu pintava as unhas dela. Não de vermelho como ela gostava, mas pelo menos estão feitas!

 

_ Parece que ele estava esperando a gente ir visitá-lo pra se despedir desse mundo.

 

_Ele teve um derrame grave né bem, é claro que ele corre risco de vida.. !

_ Médico Idiota.

 

_ Ainda vou fazer aulas de gaita.

_ Eu te amo e estou com saudades.

_ Eu também.

 

_ E isso tudo, essa falta de tato, esse excesso de intensidades acabou de destruir o que continuava sempre sendo meio. Mas hoje, choveu. Dentro e fora de casa, então fechei as janelas e sequei o chão com um pano limpo; agora é só esperar sair o sol.

 

_ Trouxe um creme de erva cidreira pra você passar e deixar o neném mais calmo.

 

_ Desculpa, mas tenho que admitir; nem só de fortalezas e belezas vivo. Parece que envelheci mais que o normal por todos os poros nesses últimos tempos.
Quando olho no espelho, a pele é de 21 anos e a sensação é de uma alma em estado de inércia e silêncio, momentaneamente exaustivos. Da falta de graça, brilho, elasticidade.

 

_ Preciso tirar mais fotos...

 

_ Ando viciada em Cappuccino e Comida Japonesa

 

_ Vem conversar comigo porque daqui também sai bom humor, risadas e levezas..! Já consigo beber cerveja e não passo mal com vinho!

 

_ Muitas coisas vão nascer mais belas a partir de agora nesse instante, e isso não é como promessa de regime na segunda-feira.

 

_ Vontade de conseguir ver e abraçar todo mundo que são os meus pedaços

 

_ A dança será o próximo passo.

 

_ ....

 

_ Que silêncio.

 

_ É, mas ta tudo bem, tudo mais claro agora.

_ Tudo é muito louco.

_ É nada, as coisas são simples!

_ Tudo é ..



Escrito por Jé, me Mime às 20h20
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TRANSMUTO E DESMOFO.

E há tanta coisa prensada, tipo caixas de papelão uma em cima da outra, esticadas e desfalcadas de sua forma habitual, tanta coisa que foi engolida, teve seu processo digestivo e, tóxico ou nutritivo, ainda não foi excretado e corre pelo fluxo sanguíneo rondando meu corpo inteiro, incomodando (resgata-se a paz de deixar o incômodo ser interessante e deixar que incomode raivosa e profundamente) e/ou enfeitando.

Quando se percebe os olhinhos, pra lá e pra cá. Caraminholando palavras soltas. O silêncio crônico. A boca emudecida não é só a boca, chega a ser até mesmo uma brancura pálida no pensamento, um estancamento de idéias e sensações devido ao risoto frio e acumulado de fatos acontecidos, vividos, absorvidos.. idos.

Houve então o fim de tarde, a revolução de um estado histérico, colérico e desilusório.
Houve o resgate dos cacos de vidro, juntos foram ao fogo, derreteram e outra arte tornou-se.
Toda com seu brilho e transparência ainda mais fortes.
Não, o brilho não chegou a cegar completamente.
De certa forma ele ainda é aquilo que foi, e dependendo do ângulo atingido pela luz, brilhante como se fez, reflete os padrões ainda sendo modificados num ritmo lento, matando aos poucos, e impulsionando com força – a dificuldade de fazer força pra impulsionar algo bem mais pesado - a viver mais e ofegantemente mais. Quase que numa obrigatoriedade de aceitar os caminhos que já se atravessou com os pés descalços.

 

Mas nesta tarde, o vidro se fez outro, mais forte, mais frágil, e o encantamento borbulhou as entranhas de um líquido denso e quente. Houve sorriso e festa. Eu me entorpeci.
Passaram um pano limpo com álcool em meus olhos, e eu pude voltar a alcançar a beleza que eu (se quiser e quando) posso perceber ao ver cada cadeia de carbono definida e modificada dependo do espaço e função que se ocupe.
E também nas dores.

As meias situações viraram situações e meia e tudo foi adicionado e pintado com mais cores, mais vibrantes.
Até aquilo tudo dos buracos.

O silêncio quando vem, vem forte e cada dia é agora uma novidade de sensações não familiares e confortavelmente sãs. A vontade de ficar debaixo do edredom no escuro enquanto o mundo lá fora, o banho pra revitalizar, as fraquezas, tudo está aqui.

E é o aflitivo aperto no peito, a sensação da eminência dos tecidos reais e dos fantasiosos explodindo pelos ares que traz a consciência de uma imensidão (mesmo nas horas que não faz sentido) sendo ainda apreciada e experimentada deliciosamente. 



Escrito por Jé, me Mime às 19h15
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DO ANDRÉ QUE VIVE [LÁ, AÍ, AQUI E ENTÃO]. (Com lembranças e foto de Lavour 'Arcaica).

                                                                       

 

E daí você acha que está tudo às maravilhas, por que só escuta a voz imparcial pelo telefone, e por pouco tempo.

E quando volta ao que chamaria de conforto se sente incomodado porque algo não está compatível ao esperado e desejado.
E não há o que lhe faça entender como na teoria dessas próprias pessoas tudo é tão mais próximo do alcançável, e como elas mesmas esquecem dos conceitos que elas próprias acreditam serem seguidos – que facilitaria a vida de todo mundo – e simplesmente continuam com uma expressão emburrada, triste, apática.

Isso te faz louco, porque a casa, o lar (doce lar?) é tão desconfortável quanto o lado de fora da casa.

Vocês tem que parar de avaliar a vida dele como sendo a vida adulta, o medo da chuva, o medo do trânsito, se ele é jovem e estará entre amigos. É um tipo de ladainha que não convence, que não cabe, que não tira a vontade de viver aquilo.

Cada um, no seu canto, fica remoendo as imcompatibilidades e se engana de que como é uma família, daqui a pouco tudo volta ao normal. Sendo que o normal, muitas vezes, por mais que todos se amem e se queiram bem é esse silêncio miserável e angustiante.

E dele, nada acaba (começa) sendo dividido porque não há abertura e receptividade, e os acontecimentos são distorcidos para o lado da peversão e malefício.

Fica esse cheiro de mofo, de falsidade (pelo forçamento da naturalidade), de superficialidade, que, sinto muito, tenho que admitir, porque não há como tapar o nariz o tempo todo.

Vez ou outra percebe-se e alegra-se com a harmonia que as coisas tomam e aí sim ele se sente em casa.
Mas
aquela forma de viver, de fluir com regras silenciosas, com horários não ditos pré - supostamente - estabelecidos, também é uma forma de mandar e de estabelecer normas discordantes....

Sim há amor, mas há todas as reverberações e os braços mais particulares do que nasce e germina do amor, a raiva, a indiferença, a preocupação, o des-entendimento, o olhar rancoroso e o olhar que oferece ajuda, a compreensão , a compaixão, o medo de perder, o medo de falar sobre esse assunto..

Quando há o olhar de cima, a percepção e o amadurecimento que faz as pessoas da família se distanciarem devido à esses pontos de vista – de vida, divergentes, diferentes, que não se cruzam.. há um corte em laços particulares, há segredos e há crescimentos não acompanhados, há lamentação por isso, mas nem tudo pode ser vivido e dividido, como situações forçadas de famílias que contam as novidade e sorriem sentados à mesa no almoço de domingo. Isso não é uma obrigação, e mesmo que assim fosse.

E já não é mais necessário se mostrar diferente, (nem quando não passa pela cabeça  mostrar-se) já não é necessário saber por si só que há que se encaixar dentro do mesmo teto, mas que já se é outra coisa mesmo ainda sendo o filho.(mesmo ainda sendo outra coisa). Isso é evidente e natural.

Sufoca um pouco ter que engolir certos enfrentamentos ao passo que, n'outro momento o rosto está limpo, certo do que se é, e do que não.

E isso tudo não quer dizer que há  pretensão em ser uma família de outro jeito, de querer que fosse diferente. Porque ele prefere  assim do que a existência de outras máscaras de uma felicidade em aparências de vidro.

Pois é assim que ele odeia e é assim que ele ama. Porque é assim que existe e o faz .

Sente-se gratissíssimo ( e por que não ?) da vida que tem.

Enquanto todos estão dormindo, lá está , hora no canto do quarto digerindo madrugada à fora a chateação, hora dançando, enquanto quieto e barulhento, rasga  e enfrenta os panos incolores, leve, respira com mais facilidade. Vira a mulher sorrindo de branco.



Escrito por Jé, me Mime às 00h10
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" OS ASSASSINOS ESTÃO LIVRES, NÓS NÃO ESTAMOS. "

                                                          

 

 

Aqui eu falo sobre Paulo, sobre Claudinha, Fátima, Valéria, Selma, Michele .. da Maria do Jõao e de todos esses.

Aqui falo.. daquela realidade que fica beirando, apenas pelo ouvido que não presta atenção, do olho que vê mas não enxerga e da boca que nem tem um movimento se quer. A mente preocupada com outras preocupações.
Aqui sou eu, cara a cara com a outra vida que tange tão próxima a minha vida, e dos raspões que tento engolir à seco.

É da rotina exaustiva do trabalho interminável. O necessário pão de cada dia, suado.
Paulo levanta às 8 pra estar no trabalho às 10 horas manhã. E lá fica manobrando os carros dos bacanas pra que  estacionem sem transtorno na hora do almoço. E faz isso até às 15 horas, quando pode almoçar. Após o almoço de quinze minutos (do qual além da comida, é obrigado a quase beber até o próprio pensamento), vai ao banco, paga contas com o dinheiro que não é dele, resolve mil e uma coisas, volta para o local de trabalho, pega a lista do supermercado, faz compras pro almoço do dia seguinte, pesa os quilos de arroz, 200 gramas de damasco,  5 ricotas frescas, pega as 5 garrafas de suco de uva, coloca tudo arrumado dentro das caixas. Fecha as portas de correr do estabelecimento, conserta a porta enferrujada com durepóx. 7 da noite coloca as caixas dentro do carro cheiroso do patrão, vai até o outro restaurante, tira tudo de dentro das caixas. Os quilos de arroz, os quilos de esperança. Pega o metrô, pega ônibus. Chega em casa as 10 horas da noite. Pela lei, o vale transporte é descontado do salário. Que coisa, Paulo tem gasto quase que metade do salário pois mora muito longe.
Paulo mora sozinho, veio da Paraíba, deixou pai, mãe e 3 irmãos. Ha três anos mora em são paulo.
Eu falo da infelicidade que vejo todos os dias nos olhos deste. Enquanto Fátima também faz o trabalho pesado da cozinha, Claudia atende no restaurante.. e etc. Todos com o sotaque nordestino típico de quem migrou para SP em busca de um futuro melhor, melhores condições de sobrevivência.

E fica-se preso numa rotina que o corpo pede socorro no tempo restante, pede a cama, exaurido das pernas e do cérebro pensando na vida a cada segundo.
Falo da minha revolta. Da compaixão que sinto. Dessa vontade doída de que as coisas fossem diferentes e que houvesse mesmo uma droga de uma democracia muito mais organizada.
Trabalhos que duram inclusive sábados, domingos e feriados não são trabalhos dignos de produtividade benéfica.
Sim, os funcionários trabalham, claro, o restaurante não fecha suas portas! O alto nível social vai almoçar uma comida deliciosa no sábado, depois faz o programa que quiser, debaixo de um céu azul, ou vai pra casa descansar e assistir um filme do Almodóvar se estiver chovendo. Enquanto Michele lava os pratos, o banheiro, lava as mãos da seu próprio sábado. E domingo a mesma coisa. Denovo, sim, os funcionários trabalham, mas o chefe, o chefe também está passeando e descansando. Porque ele precisa de um momento de lazer.  

Recebe-se pouco pra um trabalho insistentemente massante. Que sufoca as relações socias dessas pessoas, a relação delas consigo mesmas,  a relação viver e se sustentar, onde viver inclui o sentido mais amplo da palavra. Trabalha-se como escravos mascarados.
Você pode pensar positivo e dizer  "que bom que pelo menos eles tem um emprego."  E eu penso que eles tentam se convencer disso todos os dias como se emprego fosse ter que abrir mão de todo o resto.

Alguém, deixe o Paulo ( Fátima, Valéria....) respirar. Simples como ele só, anda com a foto da irmã no bolso - aquela que ele não vê a três anos. Nunca mais voltou pra casa lá na Paraíba, o salário não dá pra isso.

Só quem sente na pele sabe. Eu pouco entendo sobre isso tudo, o que vejo de fora e o que sei por eles eu alcanço só com a palma das mãos, e o coração apertado.
Sinto a impotência se esfregando na minha cara, fazendo uma bagunça infernal nos meus dias. Vontade de fazer alguma coisa. E tanta gente, milhões e milhões de pessoas.... Não é questão de ter bom coração, querer virar Dalai Lama. É que aqui corre sangue mesmo nas veias.
Ter a sensibilidade e a humildade pra se deixar ser atingido por isso. Por que eu poderia simplesmente virar as costas e ir tomar um sorvete.
Será que eu tenho que me sentir um pouquinho melhor só porque eu também enxergo essas coisas e lamento?? Não, eu não me sinto melhor.

Sou completamente exigente, irremediavelmente brava por essa ausência de trabalhos decentes, com direitos mais plausíveis ; se se trabalha demais então que o salário tenha uma compatibilidade favorável,se não, que haja tempo livre pra fluir, pro exercício físico, pros relacionamentos, para um livro, pra descansar.

Essa vontade de mudar o mundo... e não sei até que ponto fica TODO O MUNDO conformado com as situações mesmo. Afinal, quem não passa por isso não sabe como é e nem quer saber. E quem passa, faz o quê??

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E os dias vão passando, as pernas, presas por uma corda, um elástico que às vezes estica um pouco mais, acredita-se que se está um pouco mais perto de atingir os objetivos, e depois o elástico te puxa, te incapacita de seguir em frente. Você leva um susto e questiona o tal livre arbítrio, a liberdade de poder dar o rumo que quer pra sua vida. Isso não existe. Não completamente.  ..
E mais uma vez, Dorme-se e Acorda-se. Ou se faz alguma coisa, muda-se de emprego, faz uma loucura, entra na justiça, enlouquece de vez...  até um dia em que se morre. E isso não traz também nenhum alívio.



Escrito por Jé, me Mime às 21h13
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AINDA RECEOSA DAS EXPOSIÇÕES.

 

E a “muda” começou ao meio dia, quando de repente me vi maior do que tudo aquilo.

Me vi numa troca lenta, numa metamorfose de conceitos e sentidos.. A mudança nos olhares, a troca da pele.

Há uma tristeza distante e funda pelo fato de não sermos mais. Dentro de mim, não somos, você já não é.

E essa tristeza vem da lamentação saudosa do fim de tempos vividos. Tempos bons, conturbados mas com belezas explodindo em todos os segundos e respirações das minhas células.
Mas já se foram, e as memórias existem pra lembrar que estive viva um dia, de outra maneira, que não a de hoje.

Confesso, talvez boa parte do romance e brilho foram frutos da minha imaginação, rebuscada por busca inconsciente de importâncias trêmulas, de fragilidades trágicas e existência natural.

Olhando de cima tenho a sensação de simplicidade nos acontecimentos, uma simplicidade maravilhosa, que nutre em concretude pelos perfumes, pelos sabores e por tudo que foi tocado - na pele e nas entranhas - qualquer tipo de caráter humano e que acertou em cheio no meu.  Porém as lantejoulas, as purpurinas e até mesmo algumas dores foram invenções minhas.  E isso não tira o fato de ter sido real. Real foi tudo, todas as elevações. Porque foi o que vivi.

E hoje é um dia que me vejo, mais do que a ti.

Se não é que dura para sempre, então lamento, pois meus olhos já estão cansados de procurar um horizonte que me conforte. A tal da esperança. Muita coisa morreu por aqui, muita coisa você matou, outras eu assassinei com minhas unhas, dentes. Assassinei a grito. A esperança não foi a última a morrer, mas ela, eu já enterrei também.

Talvez esses nossos desalentos, mágoas, essas feridas abertas sejam uma espécie de desculpa para manter à distância a nossa semelhança e encantamento. Muito sangue foi derramado, da sua parte, da minha parte, e como crianças pedindo colo transpomos a culpa para o respectivo, a cada brecha esfregamos na cara do outro aquilo que dói.

Isso eu também já não quero mais, eu quero agora é a sua verdade, sua sinceridade, formada por palavras saindo da tua boca. Porque fora dela, eu já sei.

Quero ficar com as saudades de todo o inexplicável que fomos, sem rancor e sem “achismos”.
É algo que passa da raiva, é o levantar das sobrancelhas e o lábio que vira um pouco para o lado esquerdo, é a resignação desses caminhos e dessas atitudes negras e secas.

Que seja o início de um desprendimento saudável, o cultivo do essencial, o início da boa convivência sem intenções frustradas. E que eu sustente esse novo espaço que ainda há de ser completamente assimilado.

Somos mais do que estes pedaços retalhados no chão. Estes cacos imundos e fétidos no canto úmido do bueiro. Sim, somos isso tudo – e porque não ser? Mas não é só o que pulsa dentro de mim. Não pretendo que essa seja a minha essência.

Então, que se mude os padrões de comportamento, que se cuspa no conformismo de idéias e que levante o pé dessa lama em estado crônico.

Você continuará vivo aqui, meu bem, mas de um jeito que eu possa agüentar, que eu respire sem angústia. Que seja a sua importância e o seu peso, mas que não seja só o que me defina como existência.

 Tô falando de dar uma chance.  Abrir a gaiola. Voar ou não é uma decisão bem mais além, rasga todas as cortinas ... mas as portas, as janelas, os vitrôs, estão abertos e assim também estão as asas ...



Escrito por Jé, me Mime às 15h05
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OS FINS DE OUTRORA

                                                

 

E descendo aquela rampa, desvio das pessoas, desvio de todas “as manhas e as manhãs”  meus olhos seguiram aquela voz estridente que vinha de uns 2 andares e meio mais baixos que  meus ouvidos.

Vi uma mulher silenciosa que levava na cadeira de rodas, aquela outra, da pele morena já desgastada pelo tempo, cabelo em coque e maquiagem forte.. talvez estivesse borrada propositalmente.

Uma boca vermelha cor de jambo, um blush azul e um lápis pretíssimo envolvendo olhos grandes e cínicos. Ainda bem que aquele olhar não se dirigiu à mim e sim a um homem do meu lado que também deve ter desviado a atenção pra ela somente pelo falatório incômodo.

Esta mulher parecia uma boneca de filmes de terror, carregou seu sorriso irônico e um olhar de enfrentamento do mundo. Tinha uma caixa de morangos no colo e a certeza que todas as pessoas ali a olhavam, tinha a noção de que estava falando alto demais, para atrair olhares mais distantes e assustar com a sua convicção de ter superado aquela imobilidade parcial.

Eu tive a sensação de que seu olhar dizia “Vê! Eu estou ótima sentada nessa droga de cadeira!!”.

E ainda não sei direito por que, mas a cena dela fitando os olhos no homem ao meu lado me atemorizou. Se ela tivesse olhado diretamente para mim, eu teria vomitado.

 

 

Naquela tarde fria, sensação térmica de 3 graus Celsius, os ossos pedindo socorro e cobertor, o mendigo na rua rasgava o caminho e costurava o seu próprio no meio daquelas pessoas do avesso pra dentro de si. E dizia alto as frases que vinham sem nexo da mente, eu sabia da intenção dele. Ele estava apenas fazendo aquilo que todo mundo deseja fazer (um dia ao menos!) pra se libertar, mas não fazem devido aos cadeados internos, padrões enrustidos da ética social rasa e sufocante. E do mal-estar na pele pelo silêncio, da boca inconscientemente em estado de latência pelo contínuo hábito de “não dizer”.

Não seria pelo fato dele estar com roupas sujas, de meter medo (do assalto, da abordagem, do desconhecido e fora da sua realidade), cabelos engruvinhados e unhas compridas, não, não seria por isso.

Se fosse um cara de terno, cabelos metodicamente penteados com gel e livro na mão você o julgaria como mais um em estado obsessivo pela igreja evangélica. E esse seria o seu rótulo.

É mais fácil intitular de louco, de insano, drogado ou coisa que o valha. É mais fácil pra você que anda na rua com desejos de fazer o mesmo e gritar ainda mais alto. É cômodo sentir asco, mudar de calçada, fingir que não viu. (Ah.. Mas você não pode escapar, por mais que a sua conversa interna tente abafar seus pensamentos de libertação, seus ouvidos estão atentos e os lábios estão trêmulos.)

Os murmúrios e indignações coletivos se espalham no desconforto mudo e depois você vai pra casa, toma seu banho quentinho, dorme, acorda no meio da madrugada suando de um pesadelo e tenta entender porque.

 

 

A caminho de um rumo qualquer, dentro da locomotiva, aquele barulhinho de surpresa, de presente debaixo da cama, de pão fresco saindo do saco, de troca do lixo, a compra do mês indo pro porta malas do carro, o remédio pra aliviar a dor latejante daquilo que te sustenta, lá estava aquele barulhinho de saquinho remexido de bala de goma. Os dedos de um homem alto, forte, vestido de marrom e jeans voltando pra casa, alcançavam lá no fundo os doces coloridos. E os mastigava um por um, adoçando o sangue, os pensamentos, as vísceras e a vida ali presente. Deglutições pausadas, porém sem vírgulas nos devidos lugares.  E eu observava com um sorriso, uma satisfação pelo prazer que ele estava vivenciando as balinhas mastigáveis, uma de cada vez grudando e desgrudando nos dentes, distraindo os devaneios, e colorindo pouco a pouco - mas de uma vez só - os dilúvios, as alegrias e sonhos por dentro.

 



Escrito por Jé, me Mime às 17h55
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A GENTE SEMPRE ACORDA.

 

 

Estranho que começamos a crescer... às vezes a gente percebe.. n'outras os dias só vão indo enquanto vivemos nossas mil coisas a  viver, .. mas eu ia dizendo.. às vezes eu reparo que essa dimensão em que vivo conscientemente é tão pobre. Tão medíocre.
Comprei um vaso na última vez que estive na praia com meus pais, isso já faz umas 2 semanas. É um vaso com trevo de quatro folhas.. ! Meio raridade de ser visto por aí neh..
E eles nao páram de crescer, a cada dia que acordo e olho do lado da janela tem mais e mais e mais deles crescendo ..! Uns ainda c as folhas fechadas...! Acho isso tão bonito... enquanto eu tô dormindo.. tem uma coisa que "só" se alimenta de àgua e luz e que vai cresecendo devagarinho.. não sei que horas...  Quisera eu ficar olhando fixamente pra elas pra poder ver esse processo.. cada uma crescendo  nascendo.. um pkinho a cada dia..
A gente repara isso tb de vez enquando.. nas fotos, nas lembranças.. no rosto de outras pessoas..
Não tô muito boa pra escrever não.. fico com o olhar parado várias vezes.. lembrando de vozes, expressoões, trejeitos das pessoas que adoro estar perto.. e que agora, estão em algum lugar por aí..
 
Que coisa... hoje olhei vc dentro do carro e vi o quanto vc tá grande.. bonito, cheio de potencial .. de sonhos...  olhos doces vc tinha .. vi uma vida toda nos seus olhos... senti uma vertigem, da vida parada no eu e vc ali dentro do carro, eu, com o choro engasgado por motivos (outros) que são reais na minha existencia... , mas inteira c vc dentro do carro, enquanto o mundo todo ia girando...
Eu não entendi a lua cheia no céu... não entendi a minha blusa branca caindo no chão e aquela menininha pegando a blusa e me entregando com um sorriso leve, me olhou nos olhos, os olhos dela sorriram p mim.... Não entendi a minha reação e me escapou a capacidade de ter agido de outra forma, de ter falado outra coisa, me escapou o sorrir um pouco mais, respirar menos ofegante ou mecher nos cabelos de um jeito q te encantasse...
Sei que beijei seus olhos.. sua essência em pessoa q tanto gosto... sua voz que deixa um eco... vc beijou minha mão... desequilibrou a outra...

Olhos parados..
 
E aí o tempo... esse mesmo que faz a gente crescer... esse que move as fases da lua.. que permite as minhas plantas crescerem.. ele vai dando as ordens.. arrastando tudo, não cogita negociações..
 
Amanhã a gente acorda e é um novo dia. Amanhã a gente acorda respirando o rastro do que deixamos ontem, expirando assimilações dos gestos, da música, do vento frio que bateu no rosto.. e com tudo isso, respirando o que tá acontecendo nesse agora.
Amanhã a gente sempre acorda.
Você,.,,, você me ensina coisas... eu te adoro.. n sei direito..... .  Se eu pudesse escolher uma coisa na qual pudesse ser diferente, talvez eu fosse mais bem-humorada, mais "pra cima" , menos séria. Te faria rir mais vezes, despreocupar. ..  ....
 
Viagem.... Não liga... Sou só eu aqui em turbilhões de silêncio.........


Escrito por Jé, me Mime às 22h43
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CAUSA E EFEITO - OU - É TUDO DE MENTIRA

Poderia.. poderia.. poderia sim ser o cara, o novo, o vento bagunçando as folhas,  o sorriso.. E até foi por uns 10 minutos..
Puxou um assunto, Já chega por hoje? e eu sorri e disse Já. Vc trabalha aqui né? Eu disse por prestar atenção na conversa dele com os padeiros. Sim. Ele trabalha aqui. Aqui do lado, dá pra ver da janela.
E de repente eu não sabia nem como agir mais, quis ir embora. Talvez não saiba lidar muito bem com essas situações ocorridas. São meio raras por aki e quando acontecem.. eu não sei.. Afinal, foi se o tempo em que havia uma grande abordagem da minha pessoa, assim, cara a cara, como costumou-se acontecer nos tempos de escola e costuma ser em filmes e novelas. Uma sensação de responsabilidade. Um momento não programado, o reflexo daquelas cores virando arco-íris dentro de mim... af.. quanta bobeira....
Andei por aqueles ladrilhos com um choro engasgado, lágrimas desejando ser rio, ser mar, por ter virado as costas, por não ter conseguido ficar ali mais tempo, por ter sido tão inesperado, desconcertante, apertando - me dentro de uma caixinha de fósforos..  Eu sufoquei, e tive o ar mais puro ao mesmo tempo. Porque foi bonito. Foi sim. Foi uma esperança inconsciente da mudança, daquilo que pra mim não sai do lugar, daquilo que é difícil me desapegar, esquecer, pq nada além do que acontece, acontece. ...............................................
Às vezes a gente esquece que é uma pessoa comum, andando por aí, como todas as outras (ao mesmo tempo que não é bem assim por dentro) esquece que os olhos dos outros também estão observando e assimilando tudo, do mesmo jeito que tu fazes.. esquece que alguém pode te achar estranha com essas olheiras, ou bonita com essa beleza. Do mesmo jeito que vc o fez e faz. 
Nem sei... nem sei....



Escrito por Jé, me Mime às 22h12
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ENTÃO EU QUERO UM COLETE SALVA-VIDAS!



 

E aí você acha que é simples assim. Que depois de uma hora de conversa onde eu vomitei educadamente coisas que eu sentia coisas desconfortáveis causadas por sua falta de noção, maturidade e amor, depois de eu ter caído no mais fundo buraco, e só assim querer fôlego pra conseguir sair.
(Depois de perceber o profundo, é difícil só ficar na superfície.)
Hum, isso me lembrou uma frase sua...!
Quando eu disse que no fundo no fundo eu sabia que tinha que terminar (o restinho q faltava terminar por fora) com você, mas no raso eu ficava confusa.  E aí você disse: Então fica no raso, pq no raso a gente não afoga.
E eu me demorei pra assimilar se o que você falava tinha sentido ou o quanto poderia ser ridículo.
E percebi que não se trata só disso.. Eu não estava falando de uma piscina ou algo do tipo..! Eu tava falando daquilo.. daquilo que você não entende. Ou finge.
E aí depois do silêncio de alguns dias rápidos vem me dizer de saudades e de flores, do que a gente sempre vai ser. (A gente ainda é? Eu ainda sou?)
Eu quase vomito quando penso nisso tudo. Pq criei uma resistência. Talvez ela me salve daqui pra frente... eu não sei.. eu não sei.
Mas as horas passam, e eu quietinha, comigo mesma, contradigo tudo que falo com certeza absoluta pra mim mesma e pros outros. Fico quieta pra que não transforme coisas em palavras .. pra que não as defina. E aí se torne verdade, ou uma situação que fuja do meu controle.
Não pelo fato de querer ter sempre controle mas por que eu já não quero mais me descontrolar. 

E assim, a noite virá, e eu não vou saber das minhas ações, de quando vou olhar discretamente pro lado ou de quando vou soltar um sorriso espontâneo. Haverá ainda espontaneidade??
Eu quero que haja uma sustentação real do que ainda é possível, pra que eu possa respirar, nascer mais um pouco, ter direção nas escadas, segurar firme entre as mãos, minha poeira de fé.



Escrito por Jé, me Mime às 21h30
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À DOS CABELOS ADMIRÁVEIS. E NÃO SÓ O CABELO

A única dos cabelos admiravéis. Não só os cabelos.

 

À ruiva, das risadas contagiantes. Das histórias empolgantes com o olhar arregalado.
Das surpresas e silencios. O pensamento passando pela mão acariciando o nariz.
A alergia, a rinite, os espirros, as lágrimas. 
Os anéis, a canga cobrindo o espelho atrás da porta _ "É pq dizem que dá azar pq reflete na cama" ; ela dizia.
As formaturas, a pele branca.
A infância e o depois
Conversas mil de madrugada.....
E muito mais que nunca vai ter fim.
Companheira de almoços gigantes, Buraco sem fundo.

Homenagem a minha amiga linda, distante mas tao presente e marcante.
Das dores de saudade e Alegrias por existir.
É MUITO mais (além) que isso.
É toda uma vida na minha vida..
Lílian é aquilo que só quem tem sabe, sente.



Escrito por Jé, me Mime às 21h42
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LEMBRANÇAS DO AGORA DE FAZ TEMPO

E quando eu estava em dilúvios, e eu e você entramos no cemitério,( o muro imitando o céu), ele cheio de estátuas e  monumentos que continham histórias lacradas dentro daquelas caixas humanas. Mas não era assustador, era bonito aquilo tudo que estávamos vendo, era uma coisa nova pra mim. Quanto dinheiro é gasto na morte das pessoas.... em homenagem ao legado que continua vivo nos que ainda permanecem.
E nós duas explodindo de tanto entendimento e incompreensão. E eu queria "lançar um grito desumano" .
Mas essa coisa de grito desumano é inútil, porque ninguém realmente escuta. Ninguém está interessado se dentro dos olhos de quem passa na rua acontece o mundo em turbilhões, agonias e alegrias querendo transbordar.

Eu quis aquele dia rasgar todas as minhas cascas e carcaças, (e estava fazendo) eu quis que tudo fosse diferente, que tudo fosse melhor, e que o que já era de melhor perdurasse.
Eu quis mudar de algum jeito e a minha alternativa foi dilacerar os fios longos da minha aparência contínua e acordar a mim mesma, já que acordar os outros e o mundo é uma segunda etapa de uma profundidade muito além.

E enquanto a tesoura cortava e você ria surpresa, eu quase chorava ao som daquela música do Leoni.
Aquele som sempre me passa uma sensação de beleza e suavidade na vida. Dá-me vontade de sorrir e repetir aquele dia. 

E eu fui embora com olhos mais profundos, e com uma certeza esquisita de que eu era única no mundo, e que as mudanças percebe-se por si só. ninguém mais precisa ter consciência disso a não ser a minha própria consciência.

O meu andar na rua de cabelos acima dos ombros - que tinha sido uma revolução e um grito das liberdades – eu só, na rua sabia.
E fora todas as outras formas de ver o mundo (o mundinho e o mundão), fora o cabelo crescendo novamente algumas pessoas e coisas parecem sempre indiferentes à tesoura.

 



Escrito por Jé, me Mime às 21h27
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